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quinta-feira, 5 de abril de 2012

Resumo

Na mesa ficaram as culpas perdidas
As palavras mudas entre cada olhar...
Ficaram as velas gastas, por nós ardidas
Naquilo que foi nosso e que já não tem lugar...

Queres dar-me mundo que eu não posso aceitar
Sonhos felizes que eu não posso acolher,
Almas perdidas que eu não posso resolver,
Nem histórias que se abandonam numa sala de estar...
Tanto para me dar e tanto por onde fugir...
A cada dia, mais um passo errado
Um sim por te ser dito
Um não querendo ser derrotado,
Quando já nem sei o que por ti sentir...




Renato Machado


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Águas que passam

Para quê guardar os passos que outrora dei,
Se o passado é passado
É coisa que não volta
E eu jamais te terei?
Para quê olhar para trás e recordar momentos vividos,
Ficar parado na pensamento
Do quão felizes poderíamos ter sido?
Para quê?
Foi bom enquanto durou,
Fui feliz com o que fui
Serei feliz com o que hoje sou,
Com o que a vida me ensinou...
Foi só mais uma página de tantas páginas por escrever...
Melhores dias hão-de vir
E eu? Acabarei por te esquecer.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Poema Nulo

No meio de tanta gente
Sinto-me muitas vezes só...
Porque a companhia de alguém
Pode ser tantas vezes a solidão.
Deus não é cruel! É professor!
Sempre vivi no meio da multidão,
Aninhado no meu mundo aspergo,
Na imaculada redoma envidraçada,
Que o falso autismo me ofereceu...
Talvez por me sentir só no que me é indigo,
Sim, talvez seja isso...
Deus dá-nos força para viver
Mas não nos ensina a sobreviver...
Ou lá quem seja que nos criou...
Deus é pedagogo
E eu ainda não estudei a minha lição.
Mas, afinal acho-me sempre feliz
Penso que vivo no mundo real
No meu mundo real!

Deus não é amigo, é Patrão...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Adele (vivendo em mim)

Talvez fosse um engano
Ou eu…
Talvez fosse uma certeza…
Nada me faria ver que estávamos errados
Que os verbos estavam mal conjugados,
Nem eu…
Faria isso de ti, mais humano?
Seria eu o bom samaritano?
Já nada disto tem beleza
Apenas letras e mais letras… uma frieza
De quem deixa para trás
O que de si morreu,
Quem sabe se fui eu…
Mas já não quero procurar que mal me fiz
Nem quero culpar alguém p’lo meu fracasso.
Anoiteceu…
Acho que só me falta dar este passo
E o final? Alguém por mim o diz…
Já está, aconteceu…
Não digas palavras que não queiras dizer
Que eu não direi aquilo que não queres receber.
Mágoa… já passou…
Quem é que nesta vida nunca errou?
Sou poema em constante correcção
Pois sou de carne e de razão,
Tenho sentido e tenho coração
Foi o que nos calhou, o que alguém nos deu,
Para que esta vida fosse uma confusão…
Sim… acho que fui eu…
Tudo isto se sucedeu…
Tudo isto foi uma paixão.



Renato Machado

terça-feira, 29 de março de 2011

Igualdade de Palavras

Há palavras feitas para se aplaudirem de pé.
Outras que nem se querem ser ditas,
Há quem diga que são malditas…
Pessoalmente, detesto essas betas, benditas,
Querem fama, acham-se eruditas…
Há filhas e enteadas, mas é!

De quando em vez, solto-lhes as rédeas
Dessas desgraçadas sedentas de liberdade.
E lá vão elas, a alto e bom som
Um “foda-se!” que é do bom,
E sacia cá dentro qualquer traço de ansiedade.

Mas não… aqui não se quer calão!
Só palavras clássicas, elegantes, gentis…
Que fizeram as outras coitadas
Para me responderem no momento imediato
Ao soltar estas mal-amadas
“Isso não se diz!”?

Cada qual tem o seu lugar…
E se alguém por interesse, no mundo as botou,
São então para serem usadas por quem cá ficou…
E se busco a melhor palavra quando procuro figurar,
Que jeito tem dizer “arre” ou “irra” quando me estou a passar?!


Renato Machado

domingo, 20 de março de 2011

Apontamento

Contará tudo como sendo verdade
Sim… Não haverá desilusões nas palavras mentidas
Tão pouco sofrimento naquilo que ficará por dizer…
Para quê amar o que nos amarra com tanta ferocidade,
Que tantas vezes nos rouba a dignidade,
Apenas porque somos humanos,
Apenas porque somos moldados por enganos,
Apenas porque a nossa condição é sofrer?


Renato Machado

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Londres

Serei palavra em qualquer parte
Serei memória daquilo que pretendo ser?
Não faz mal, o que me importa é estar comigo
O que me faz feliz é saber que tento
Que vou onde me leva o vento
E que no fim, sou aquilo que de mim consigo.

Serei palavra em qualquer parte
Serei o mundo que espera por me ter?
Basta-me apenas sentir-me a seguro
Do sonho que outrora me visitava
E que pelo meu nome tantas vezes clamava...
Talvez seja eu que o sustento, que o procuro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Quando chove em mim

Quando chove em mim
Só a alegria diz “ ninguém me vence!”
Quando chove em mim
É um trás para a frente
A vida sobe a montante com a corrente
Um rebobinar, um anti-fim
Pois a minha alma, só a mim me pertence.

Quando chove em mim
Não há quem me faça entristecer.
A chuva cai, lava-me
Olha-me e, nos seus braços me acolhe.
(É água-mãe que o filho não escolhe.)
Quando chove em mim
Parto rumo à alegria e ao que der e vier.
Vem chuva! Ama-me!
Trás a mim o que sempre quis
Chuva fresca faz de mim o teu aprendiz!

Quando chove em mim
Sou poema que se dá por terminado
Um sonho limpo, imaculado.
Quando chove em mim
Não quero escutar quem quer que a chuva cesse.
Quero a chuva que a minha alma arrefece.
Quero a chuva que cai em mim
E faz da alegria a minha morada.
Chuva alegre vem ser o meu fim.



Renato Machado

domingo, 7 de novembro de 2010

Viagem na companhia da Dor

Não sei o que me dói
Onde me dói,
Nem quando me dói,
Apenas sei que é dor que grita dentro de mim,
Dor que quer ser alguém, dor que quer viver para lá de mim.
Esta é a minha dor, eu sou a dor,
Dói tanto, mas nada digo, porque tenho de ser assim…

Dói mais a alegria que tento extravasar,
Os sorrisos esboçados que não saem de mim
Que vieram de outro lugar.
Dói mais os momentos de agitação e felicidade
Porque sei que esse não sou eu,
Apenas um corpo que Deus me deu,
Não me quero assim para minha verdade,
Dói tanto, mas nada digo, porque tenho de ser assim…

Não dói quando choro com gosto,
É como um calor de um fogo posto
Que acalenta esta alma sedenta de paz.
Sou eu se a tristeza não me dói
Se a bondade não me corrói
Se o que o tenho hoje, fique pelo caminho,
Para que possa ir sozinho
Sem saudades do que fica para trás.

Dói tanto, mas nada digo, porque tenho de ser assim…




Renato Machado

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Poligamia

Escrevi-te na minha carne,
Apertei os laços que ninguém vê
Mas que só a gente sente.
Deixa-me sentir-te,
Deixa-me sorrir-te…
Não dói mais (parabéns a você…)
E sobrámos nós,
Tanto silêncio num olhar sem voz…
Mistura-te em mim
Faz da festa uma carnificina!
Do meu palco, a tua sina,
No tempo de Columbina e Arlequim…

Mas só a gente sente,
Só a gente recusa a mão na hora de amar
Só nós temos coragem de viver em pleno
Fazer de um solo, uma plateia vazia, um sereno…
Um passo a passo inconsciente,
Eu sou eu, tu és tu.
Na minha carne, a sangue frio, a cru…
Meu bem, estamos cá para ficar.

Eu sou eu, tu és tu.
Jogo limpo, tanto corpo nu.
Vai onde tens que ir
Eu irei onde ele estiver, onde ele surgir
Porque não somos de ninguém
Nem a nós nos pertencemos…
Não vale a pena, não venceremos
É liberdade sem custar um vintém.


Renato Machado

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Poema para uma despedida (ao meu pai)

O que sonhaste já lá vai,
Flutuando entre a espuma do esquecimento
Tal barco de papel que parte sem destino.
O que sonhaste já lá vai…
Vai seguindo a maré alheia ao esquecimento,
Como se pedisse guarida ao vento,
Como um pássaro voando no sol vespertino.

Vão sonhos, vão beijar a eternidade
Que quem aqui dorme, jamais lhe tocará.
Vão ser de outro alguém que lhes dê tamanha graça e valor,
Que tenha ainda energia, a força de ser calor…
Ai… vão sonhos, vão beijar a eternidade
Que quem aqui dorme, para todo o sempre dormirá.




Renato Machado

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Cinco Estações (alter-ego)

Cinco mercês sem mira
E um sitio desejoso de se pousar.
Primeiro vai o “deixa andar” mais a sorte
Vai cedinho e cedinho traz a morte,
Traz especiarias perfumadas com cheiro a oriente
Para o presente, inconsequente, eloquente ocidente…
Pára de caminhar
Chiu… pára, olha, escuta, aprecia a sua ira.

Depois vai a carroça que ninguém toma rédea
E vem no regresso com bijutarias que nunca ninguém viu.
Vai Brasil… vem Abril…
Vai Abril… vem Brasil…
E a gente troca o passo com a linguagem
Porque sobra sempre espaço a cada viagem,
Porque existe tempo que já se esqueceu, ou nunca existiu.

Terceiro quer ser o primeiro
Ser imperador do mundo inteiro
Mas não quer ter fama nem sucesso.
Quer apenas fortuna e um regresso.
Junta-se-lhe o desejo e a passividade
E nasce o terceiro, não é carne nem é peixe
Nem é gente que se queixe,
Apenas se mantém sóbrio com a sua dignidade.

E quarto está onde lá mora,
Onde viveu ontem, vive hoje, aqui e agora…
Sem temer, oferece a alma que não tem
Por julgar que há quem precise do seu alguém.
Por ser sozinho, segue o caminho
Segue as pegadas que viu dar um dia.
O quarto quer apenas uma dose de alegria
Por estar farto do seu eu que chora.

Por último volta para trás de onde nunca quisera sair
E pede a deus que lhe faça esquecer todas as visões.
Fuma, bebe, e sorri.
Olha em frente sem saber o que vai pensar a seguir
E estende a mão a quem passa…




Renato Machado

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Poema a Deus

Há quem não te comente apenas por não saber o que dizer.
Também eu…
Evito enfrentar-te todas as manhãs da minha vida
Todas as tardes da minha vida,
Todas as noites da minha vida,
Toda a minha vida…
Há quem não te queira apenas por não ter de te querer.
Também eu…

Não te quero…
Não te choro…
Não me importo se estou só.
Assim o espero,
Até desespero,
Se for preciso, até adoro!
Mas não vou lavar-me no teu pó…


Sou corpo feito vida na madrugada
No lusco-fusco da terra meio adormecida.
Sou do nada, vim do nada,
Sou de gelo, sou geada,
Sou sol que queima na parede caiada,
Na manhã que é criança entristecida.

Também eu…
Há quem não te rogue por nem saber o que é rogar…
Já eu sei o que é te implorar…
Manhãs quentes e tardes de pão.
Acordares ausentes… adormecer na solidão…
Também eu sei quem tu és
E por o saber, não me ajoelho a teus pés…
Deus… também eu!


Renato Machado

sábado, 15 de maio de 2010

Para fugir da rotina da poesia II

Cada qual tem o seu lugar

- Um bilhete para um sítio qualquer… – disse ela com os pensamentos perdidos. Sabia onde estava, mas não sabia onde queria estar, muito menos sabia se esse seria o lugar ideal que tanto sonhara, apenas uma certeza lhe prevalecia “eu não quero estar mais aqui”.
Saiu da fila e vagueou por entre os bancos apinhados de gente. Gostava de observar os outros, sempre assim foi, estava-lhe entranhado na pele, no sangue mas, não se punia por isso aliás, tinha essa característica como uma mais valia na sua vida, fazia-se crer que observar os outros era uma escola, um guia prático de como se deve actuar em qualquer situação. Porém continuava a existir o vazio…o vazio de saber que lhe falta aprender uma lição, e saber qual a lição em falta, ainda pior. Ela precisava urgentemente de se encontrar, ali não estava então, “vamos partir para outro lugar”.
Apressada, com vontade de pousar finalmente no seu enquadramento, entrou, atropelando várias pessoas, na carruagem da frente. Escolheu um lugar perto da janela, onde pudesse ver o nome de cada estação ou apeadeiro, onde pudesse observar a paisagem, respirar o vento que lhe entraria de rompante e bateria na cara, despenteando-lhe o cabelo, e respirar cada centímetro de terra percorrida. Tudo isto fazia parte da sua busca. O comboio iniciou viagem e ela não descolou um segundo do seu lugar. Entre olhares curiosos que deitava aos seus companheiros de viajem para tentar perceber onde iam e o que faziam, e o mundo que passava velozmente pela janela, tentava perceber onde iria desembarcar.
Passou a primeira estação… a segunda… a décima… a vigésima segunda… “não, não é aqui. Mais um pouco, estou quase lá”, pensava ela a cada paragem do comboio. Olhava lá para fora e cada rosto, cada pedra, cada árvore, nada lhe diziam. Mas não a julguem por frustrada, não… era apenas alguém que queria sempre mais. - E que mal tem querer mais que aquilo que a vida me dá? – Dizia ela tantas vezes a si e aos que tantas vezes lhe abordavam com a questão da procura.
Finalmente a viagem terminara por não haver mais linha-férrea para percorrer. Contrariada, teve de sair do lugar onde se encontrava confortavelmente instalada e enfrentar um novo lugar, uma nova gente, uma nova maneira de estar. Pegou na mochila, botou às costas, saiu vagarosamente da carruagem de modo a aproveitar cada segundo deste nova experiencia. Deixou para trás a confusão do terminal e fez-se às ruas apinhadas de betão e de gente. “Ainda não me encontrei”, pensava ela em cada imagem nova que ia retendo na sua mente… ao passar a estrada encontrou o seu lugar e deitada no chão com dezenas de desconhecidos à sua volta gritando, chorando, pensou “ está quase miúda, falta pouco para chegares lá…” fechou os olhos…




Renato Machado

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Adeus Amigo

(Em linha recta para o calor
Duas torres brincam a meio do rio).
Vai tu, eu cá não arrisco…
Não sou de medos nem heroísmos,
Muito mesmo de cinismos.
Prata e ouro, para mim são isco!
Vai sozinho por favor,
Sou sombrio, tenho frio
Vai sozinho, leva lá quem comigo não for.

Que dissera a hora quando eu não apareci?
Tomava leite tão rasca como o triste vinho…
Que disse a água quando eu não a bebi?
Eu já estava longe no outro lado do ninho.
Não obrigado, sorte tua por seres tenaz,
Eu cá me conheço,
Não me mereço
Não tenho vontade para tal feito ser capaz.

A barca vai na hora atravessar a corrente,
Não te deixes atrasar para o nascer do dia…






Renato Machado

terça-feira, 13 de abril de 2010

Paralelos

Lá ao fundo, vejo a invisibilidade
As formas que se pavoneiam e troçam de quem não as vê…
Dançam freneticamente entre os braços da ventania
E gracejam movimentos de alegria
Como se a cegueira fosse a sua magia…
Como se a cegueira fosse dom prodigioso digno de gratidão…
Minha estranha maldade,
Meu pedaço de nada sem piedade…
Meu fruto inglório aos infortúnios da solidão.

Silêncio…
Elas caminham lá de longe pisando flores,
Cada passo, cada impulso…cada nota… cantada por entre respirações…

Não venham tarde… venham com o cair da escuridão.
Mas não batam a porta,
Entra simplesmente, como se o meu mundo fosse vosso,
Como se o ar que respiram fosse vosso…
Como se o meu coração fosse o vosso…
Espero… sem querer uma razão.

Não deixem que eu me desprenda,
Cortando as amarras que me prendem ao vosso lugar.
Quero continuar a ver o que não existe,
Como se existisse e fosse a realidade em mim soberana.
Porque o que os outros vêm, é apenas uma forma humana
Imperfeita, sem emenda
Desprezando até a sua corrigenda…
Quero apenas ver e saber que é na ilusão que quero ficar…
Para sempre o meu eterno lar…

Adeus não digo…
Apenas agradeço,
E assim da realidade fria me despeço,
Pois é por este caminho que agora sigo.




Renato Machado

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Trono de São Fiel

Enormes, vastos, volumosos!
Semelhantes a balões de ar quente flutuando…
Cores… sóis! Infinitos como a felicidade!
E sorrio aos desejos que me pintam a imaginação,
Como uma alegre canção,
Cantada entre gargalhadas colhidas na horta da ingenuidade,
Com a minúcia precisa nos dias calorosos…
Nos dias que te vou em mim cantando.
E corre para os tapetes tonificados de verde amarelado,
Rebola na espuma que brinca na rebentação…
Inventa histórias coloridas que ninguém vê…
Há melodias que não se escutam, mas a alma as sente!
Vem de longe quem as sente,
Para sentir o arrepio gélido que em si o crê!
Porque para cada sonho existe uma canção,
Existe vida que lateja ferozmente de emoção,
Existe o presente, um futuro, a quem não se tem medo de dizer:
Eu também sou feito de passado!




Renato Machado

segunda-feira, 22 de março de 2010

Velha Canção

Não posso oferecer o que não tenho,
Mas posso querer o que não é meu…
Porque a liberdade de alcançar o alheio
É-me tão certo como o mundo ser um copo meio cheio,
Onde o que não se afogou, morreu.
Onde a mão que lanço, vem cheia quando a mim venho…
Misterioso é querer o que me pertence!
Como um golpe baixo que a mim me vence…
Certeza de querer o mundo dos outros…sim.
Porque o que tinha de eufórico, esvaiu-se…
Foi-se, sumiu-se…
Até julgar não ser tão mau o fim.

E no resto que sou, sou Abril,
Sou a primavera que vai raiando sol no que há em mim.
Mas até as andorinhas não são eternas…
As alegrias são fugidias quando se vêm com pernas,
Vão alucinadas, beber copos nas velhas tabernas,
Vão derramar vinho no imaculado cetim…
Vão ser aquilo que julguei guardar para o fim…
Porque até em mim, o lembrado torna-se senil.

Já não quero o que não me pertence
Vou esperar simplesmente que o calor do verão
Me lave as dores com panos frios,
E me ensope os pensamentos no turco da sua compreensão.
Porque aquilo que não me vence,
Unifica os meus arrepios,
Como se me cantassem uma velha canção.

Renato Machado

quarta-feira, 10 de março de 2010

Não o fales em inglês

Calma… não carece de pressa.
Passo a passo, devagarinho,
Tudo se faz, tudo tem a sua vez…
Hoje a palavra que se confessa,
O olhar roubado quando teu corpo me atravessa…
Mas não o fales em inglês!

Não digas palavras para a qual não tens um sentido,
Diz-me o dia-a-dia,
Uma palavra vaga… para mim já é alegria!
Um sorriso… uma expressão…
Pouco a pouco… o meu coração!
E sem o perceber, ao teu encontro, terei sorrido.

O mundo não acaba amanhã…
Toca nas pequenas maravilhas da aventura!
Toca em mim, toco em ti… será ternura…
A felicidade no pecado dentado na nossa maçã.



Renato Machado

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Nato

O meu tempo,
Leva-me no tempo…
Leva-me nas dores de quem me fez…
E o sofrimento…
Não tanto como um tormento,
Mas o grito do fado que tenho em minha pequenez…

O vagar que passa a correr…
O sino que toca dentro da minha cabeça….
E tudo começa!
O longe que passa raspando bem perto,
A confusão de gente no meu deserto…
E tudo em mim está pronto a nascer!

O meu mundo teima em me expulsar,
O queimar…
A luz que a dor estreita me oferece,
Meu corpo quente, de estranheza, arrefece…
As mãos que me tocam em novidade,
O choro impõe-me a voz…a realidade!

Nasci!
Não sei quem sou,
O que sou…
Onde estou?
Vou ficar aqui….




Renato Machado